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Bicicletada em SP: como o movimento se consolidou na cidade e no mundo?

  • 23 de nov. de 2023
  • 5 min de leitura

Atualizado: 27 de nov. de 2023

O ativismo se consolidou aqui no Brasil, em São Paulo e a primeira Bicicletada expressou sua luta por espaço na via e a bicicleta como meio de transporte


Antonio Neto

Pedalar em uma cidade como São Paulo pode ser legal, porém, bastante perigoso. No entanto, diante de muitos acontecimentos, entre eles acidentes, violência e mortes contra ciclistas, surgiu a Bicicletada (Massa Crítica – critical mass). O evento ocorre tradicionalmente na última sexta-feira do mês em muitas cidades pelo mundo, onde ciclistas, skatistas, patinadores e outras pessoas com veículos movidos à propulsão humana ocupam seu espaço nas ruas. Aqui em São Paulo, na Praça do Ciclista, Consolação, zona central de São Paulo.


Uma das principais características do movimento é a adesão a um princípio de horizontalidade, no qual hierarquias não são encorajadas. Por essa razão, o movimento não possui uma liderança definida. Contrariamente ao que se poderia supor sobre a organização, ou talvez desorganização, que essa estrutura implica, na realidade, ao adotar um modelo de liderança distribuída, no qual todos compartilham a responsabilidade pela realização dos eventos, torna-se viável a supervisão mútua nesse processo. O movimento não tem liderança porque pretende se afastar das lógicas estruturais do capitalismo e de qualquer outro sistema econômico ou político no qual a lógica da exclusão é fomentada.


Voltando um pouco no tempo, sua primeira edição ocorreu em setembro de 1992, em São Francisco, Califórnia (EUA), quando Chris Carlsson, um dos idealizadores, participou de uma reunião da San Francisco Bike Coalition e levou a ideia, que já havia sido discutida e gerada por um grupo de ativistas do qual ele fazia parte. O grupo considerou o grande número de ciclistas que havia na cidade, as condições ruins para o tráfego de bicicletas e propuseram um encontro mensal para que a bicicleta tivesse visibilidade e passasse a ser notada pelo resto da cidade.


Chris Carlsson disseminou a ideia entre outros ciclistas apenas distribuindo panfletos no centro financeiro de São Francisco. A primeira edição do encontro, nomeado mais tarde como Massa Crítica (Bicicletada), contou com a presença de 72 pessoas e hoje é quase impossível precisar o número de participantes. A partir da experiência de São Francisco, Chris Carlsson reflete sobre o Massa Crítica:


Grande pedal na cidade de São Francisco (Imagem/Reprodução: San Francisco Chronicle)


Há muitas críticas com relação ao movimento por sua origem e estrutura anarquista. A ideia da Bicicletada é que aconteça criando um espaço onde os veículos motorizados sejam substituídos por veículos movidos à propulsão humana.


"Não estamos atrapalhando o trânsito, nós somos o trânsito". captura com precisão sua filosofia. Em contrapartida, motoristas de veículos automotores, como o carro e ônibus, argumentaram que o evento é uma iniciativa para obstruir o fluxo do tráfego e causar impacto nas operações cotidianas das cidades, alegando que os participantes da Bicicletada se recusam a acatar as leis de trânsito que, em sua maioria, se aplicam tanto a ciclistas quanto a outros veículos.


A Bicicletada é ligada ao movimento ambiental, o qual cita que o automóvel degrada nosso meio ambiente, tanto em termos físicos como sociais. O objetivo do evento, como indicado pelas ações de seus participantes, é se opor à priorização  do automóvel nas metrópoles, criando uma alternativa mais ecológica e sustentável. De acordo com dados do Summit Mobilidade do Estadão, carros são responsáveis por 72,6% da emissão de gases poluentes e diferentes desses veículos, as bikes contribuem para a melhoria na qualidade do ar.


Além disso, quando se trata de sustentabilidade nos tempos atuais, nas grandes cidades, a mobilidade urbana está passando por uma transformação significativa com a proliferação de aplicativos de transporte. Optar pela bicicleta como uma alternativa não só pode resultar em economia de dinheiro em comparação com o uso de aplicativos ou transporte público, mas também contribui para a redução das emissões de gases poluentes e alivia os problemas de congestionamento, uma vez que as bicicletas ocupam consideravelmente menos espaço do que os carros.


Chris Carlsson, fundador do movimento da Bicicletada na cidade de São Francisco, disse que o movimento começou com aproximadamente 50 pessoas e nos eventos seguintes o número cresceu em quase mil pessoas. “Eu costumava me reunir com um grupo de amigos para debatermos a respeito de política e bicicleta. Começamos a nos reunir uma vez por mês e pedalamos no começo de uma rua movimentada na hora do rush. Foi crescendo aos poucos e um ano depois em outro de 1993, éramos  mil. No meio dos anos 90 tínhamos pedaladas de 4 a 5 mil pessoas.” explicou Carlsson. 


(Imagem/Reprodução: Acervo pessoal/Renata Falzoni)



Bicicletada na cidade de São paulo e a mobilização por visibilidade


Ao longo dos anos, outras massas foram se formando ao redor do mundo, como Reino Unido, Portugal, França, Alemanha e, em especial, no Brasil. Aqui na cidade de São Paulo, a primeira Bicicletada paulistana aconteceu em 22 de setembro de 2007, Dia Mundial Sem Carro, na Avenida Paulista.


Naquele dia, 300 ciclistas se concentraram na principal via da cidade para expressar que a categoria existe e lutava por mais espaços nas vias. O evento deu destaque a falta de respeito, insegurança vivida nos grandes tráfegos por motoristas de carros e principalmente a falta de políticas públicas que atendessem a categoria.


Primeira Bicicletada no dia 22 de setembro de 2007 na Av. Paulista (Imagem/Reprodução: Apocalipse Motorizado)


Durante o pedal, a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) tentou intervir na passeata alegando que os ciclistas não podiam fechar a via e militares tentavam "organizar" a manifestação, que desde o seu início, havia uma faixa de ônibus liberada na via para o fluxo de carros.


Para Michelle Borges, ciclista e professora, de 34, ‘’Quando centenas de ciclistas se reúnem nas ruas das grandes cidades na última sexta-feira do mês, é impossível ignorar nossa presença. A segurança e os direitos dos ciclistas são temas cruciais para nós. Quando pedalo em grupo me sinto mais protegida e confiante.” diz Borges.


O cicloativismo não é só a luta por sustentabilidade e integração da bicicleta como meio de transporte, em outros momentos após essa grande Bicicletada na Avenida Paulista, mortes e acidentes de ciclistas ocorreram e muitos colegas de rodas se solidarizavam com passeatas pedindo por mais segurança e respeito.


O ano de 2009 ficou marcado para os cicloativistas, pois uma companheira ativa do movimento perdeu sua vida no final de uma manhã em um ‘acidente’ na Avenida Paulista.

Na manhã do dia 14 de janeiro de 2009, Márcia Regina de Andrade Prado, de 40 anos, se deslocava de bicicleta para o seu trabalho, quando um ônibus lhe atingiu, retirando imeditamente sua vida. O corpo da ciclista ficou no local durante 4 horas após o acidente.


Na noite seguinte ao acidente, amigos e ciclistas, sob chuva, se mobilizaram em homenagem à Márcia que instalaram uma ghost-bike no local.


(Imagem/Reprodução: Vitruvius)


O cicloativismo é luta por espaço, mobilização, busca por visibilidade e segurança no trânsito, integração da bicicleta como meio de transporte e políticas públicas que atenda as necessidades dessa categoria, visando uma certa atenção e responsabilidade do poder público de não priorizar somente os automobilísticos e também atenção e respeito dos motoristas em grandes centros e cidades que prezam por um trânsito amigável e com menos violência que possam resultar em mortes.


 
 
 

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