Exclusão social: os limites de uma cidade que podem ser ultrapassados
- 23 de nov. de 2023
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Atualizado: 27 de nov. de 2023
Boa parte da estrutura cicloviária da cidade ainda está localizada em zonas centrais e bairros nobres e serve mais ao lazer do fim de semana do que ao deslocamento cotidiano
Antonio Neto & Gabrielle Consendei
O crescimento acelerado das grandes metrópoles, exemplificado pela expansão urbana da cidade de São Paulo, tem gerado impactos significativos na estrutura social e no acesso aos recursos. À medida que essas cidades se expandem horizontalmente, as áreas periféricas muitas vezes se tornam espaços de exclusão social, onde comunidades enfrentam desafios consideráveis no que diz respeito ao acesso a serviços básicos, oportunidades de emprego e qualidade de vida.

Áreas periféricas sofrem com falta de infraestrutura e principalmente politicas públicas que atendam essas regiões (Reprodução: Eduardo Knapp)
Nesse contexto, a exclusão social associada ao espraiamento não é apenas uma questão de distância física do centro, mas também ligada à falta de infraestrutura adequada de transporte e mobilidade. No entanto, emerge a bicicleta como uma ferramenta de grande potencial para mitigar essa exclusão, oferecendo uma solução sustentável e inclusiva. O uso da bicicleta não apenas proporciona mobilidade eficiente em áreas urbanas expandidas, mas também promove integração social, melhora a saúde e reduz a dependência de transportes tradicionais que muitas vezes excluem as comunidades periféricas.
Um dos principais fatores que contribuem para a exclusão social nessas regiões periféricas é a carência de infraestrutura, principalmente cicloviária. A implementação de infraestrutura adequada, como ciclovias e bicicletários, não apenas facilita o deslocamento, melhora a qualidade de vida, mas também estimula um senso de pertencimento e coletividade. Além da mobilidade, a bicicleta desempenha um papel fundamental na promoção da integração social.
Mário Palhares, jornalista e ciclista, de 41 anos, morador do bairro da Brasilândia, na zona norte da capital, reconhece que as melhores ciclovias estão em bairros nobres e que em áreas periféricas são malfeitas. “As melhores ciclovias que nós temos estão no centro expandido, e mesmo assim são bem precárias, não é? Na periferia, acho que quase todo o complexo cicloviário nas periferias de São Paulo, foi feito apenas para cumprir tabela. São muito mal feitos, inseguros em vários aspectos, tanto na segurança de ser assaltado, quanto em buracos, sujeira e são muito estreitos.” afirma Mário.
Depender dos modos de transporte tradicionais, como o automóvel, é muitas vezes inacessível para as comunidades periféricas devido a barreiras econômicas e estruturais. A bicicleta, ao contrário, representa uma solução economicamente acessível e ecologicamente sustentável, contribuindo para a redução das disparidades de mobilidade entre diferentes estratos sociais.
A história de Mário reflete os desafios enfrentados por muitos residentes de áreas periféricas. Sua observação sobre a precariedade das ciclovias destaca a necessidade crítica de investimentos em infraestrutura cicloviária nessas regiões. Ao direcionar recursos para o desenvolvimento de ciclovias seguras, largas e bem conservadas, as autoridades municipais podem promover uma mudança significativa na dinâmica de mobilidade urbana, criando uma rede mais equitativa e inclusiva.
Sasha Hart, geólogo pela Universidade de São Paulo (USP), afirma que o uso da bicicleta é uma opção de mobilidade para aqueles que estão em áreas afastadas dos grandes centros. “Quem mais sofre com a questão da mobilidade, bem como a poluição gerada pelos automóveis, são essas populações mais pobres e negras que ficam muitas horas presas no trânsito. A bicicleta é uma opção mais desafiadora no caso de distâncias maiores e para pessoas com menos força; entretanto, ainda precisamos avançar bastante tanto na infraestrutura cicloviária, como ciclovias nas pontes e eixos de conexão da periferia até o centro.” diz Hart.
A Pesquisa Nacional Sobre Mobilidade por Bicicletas (Perfil Ciclista Brasileiro 2021), mostrou que 55,8% dos usuários são pessoas entre 20 e 39 anos e 17% têm renda entre um e dois salários mínimos. Com base neste estudo, a bicicleta se mostra como um meio de transporte acessível para uma considerável parcela da população, além de se tornar uma ferramenta para a inserção no mercado de trabalho.
Nos rincões urbanos, onde a dinâmica da vida é moldada por desafios socioeconômicos e a paisagem é marcada pela periferia, uma transformação significativa vem acontecendo. Jovens, muitas vezes desafiados por barreiras estruturais e econômicas, têm encontrado nas oportunidades pelos aplicativos de entrega uma porta de entrada ao mercado de trabalho. Nesse cenário, a bicicleta surge como uma ferramenta, transcendendo a mera funcionalidade de transporte e assumindo o papel de instrumento.
“A bicicleta traz para a periferia, em primeiro lugar, a economia” diz Miriam Luz, de 29, moradora do bairro do Jaraguá. Essa frase, dita por Miriam, reflete como sua vida mudou após adquirir uma bicicleta, que há 3 anos desempregada, entrou no mercado de entregas e agora consegue fazer uma renda com isso. “Muitas pessoas que estão em áreas afastadas podem estar desempregadas, procurando por uma oportunidade no momento.” completa Miriam.
A cidade de São Paulo é a 10º cidade com maior população no mundo, a primeira no Brasil. Ao longo de sua história de 469 anos, a metrópole recebeu comunidades de todos os continentes do mundo, de várias regiões do Brasil. Um mapeamento realizado pelo Instituto Escolhas, mostrou que em 2023, um morador do município de Parelheiros, extremo sul da capital, mostrou que gasta, em média, 1h40 e mais ou menos R$ 14,39 para se deslocar até o centro da cidade utilizando transporte público. Já quem vive em Moema leva 40 minutos e paga cerca de R$ 6,07 em transporte coletivo para ir ao centro.
Yasmin Almeida, arquiteta e urbanista, formada pela Universidade (UNIP), de 33 anos, afirma que somente o investimento em infraestrutura não é suficiente. “Não é somente investir em ciclofaixas e ciclovias, mas promover a integração com os modais coletivos, com a construção de bicicletários próximo às estações de transporte e a implementação de postos de compartilhamento de bicicletas, como é o caso dos pontos espalhados pela cidade pelo Itaú.” diz Yasmin.

Jovens pedem por infraestrutura na periferia (Reprodução: Ciclocidade)
Portanto, a bicicleta não apenas se revela como uma alternativa de mobilidade, mas também como uma ferramenta para a inclusão social e econômica, especialmente para aqueles que residem nas periferias das grandes metrópoles. O relato de Miriam Luz, moradora do bairro do Jaraguá, apesar da distância, explica como a bicicleta pode transformar vidas, proporcionando uma oportunidade de emprego e contribuindo para a economia local.
Marcos Oliveira, de 23 anos, morador de Parelheiros, extremo sul da capital, expressa que a bicicleta teve um efeito positivo em sua vida. "A bicicleta não apenas me inseriu no mercado de trabalho, mas abriu portas para oportunidades que eu nunca imaginaria. O que começou como um bico temporário se transformou em uma fonte estável de renda."
A inserção de jovens nas oportunidades de trabalho oferecidas pelos aplicativos de entrega, impulsionada pela mobilidade proporcionada pela bicicleta, não só cria fontes de renda, mas também estimula uma nova dinâmica de empoderamento econômico nas regiões periféricas. Esse movimento representa uma resposta inovadora aos desafios impostos pelo crescimento desigual das grandes cidades.
A bicicleta emerge como um símbolo de transformação, conectando comunidades periféricas ao centro urbano, não apenas fisicamente, mas também economicamente. É um veículo não apenas de deslocamento, mas de oportunidades e superação de desafios, contribuindo para a construção de uma cidade mais justa e sustentável.
Confira um trecho da entrevista com Mário Palhares, ativista e membro do coletivo MontaMona.




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