Subidas e descidas: A busca por mobilidade e a luta contra as estatísticas mortais
- 23 de nov. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: 12 de dez. de 2023
O Brasil atualmente se posiciona como o terceiro país com o maior número de vítimas fatais em acidentes de trânsito
Nas movimentadas ruas e avenidas da cidade de São Paulo, onde o ritmo acelerado do trânsito contrasta com a busca crescente por uma mobilidade sustentável, emerge uma realidade sombria que pedala lado a lado com o entusiasmo do cicloativismo: a insegurança e as mortes de ciclistas. Enquanto a Bicicletada reúne entusiastas mensalmente para celebrar a bicicleta como meio de transporte, protestar contra o descaso municipal da prefeitura, pedindo por visibilidade e segurança viária, as estatísticas ecoam um lamento preocupante.
Nesse cenário, as pedaladas, que deveriam representar liberdade e sustentabilidade, são muitas vezes interrompidas por colisões fatais, principalmente entre ciclistas e veículos de grande porte. Dados do sistema Infosiga, administrado pelo Programa de Respeito à Vida e coordenado pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran), o Estado de São Paulo observou um aumento de 7% no número de óbitos resultantes de acidentes envolvendo bicicletas ao comparar o primeiro semestre do ano passado com o mesmo período deste ano. Nos seis primeiros meses de 2022, foram registradas 163 mortes de ciclistas, enquanto que, no mesmo período de 2023, esse número aumentou para 175.
Além desses incidentes, houve crescimento dos óbitos com ciclistas quando comparado com os meses de junho de 2022 e 2023. No ano passado, foram contabilizadas 25 mortes e ainda neste ano 30.

Ciclistas protestam contra violência na cidade de São Paulo (Reprodução: Brasil de Fato)
O Brasil atualmente se posiciona como o terceiro país com o maior número de vítimas fatais em acidentes de trânsito. No ano de 2020, 32.716 pessoas morreram em acidentes de trânsito no Brasil, o que significa que, em média, três pessoas morrem no trânsito a cada hora. Apesar dos números alarmantes, entre 2011 e 2020 houve uma redução de 30% no total de vítimas do trânsito – em 2011, cerca de 42 mil pessoas morreram em acidentes de trânsito.
Tramita na Câmara dos Deputados o projeto de lei 2789/2023, que busca reduzir as mortes de trânsito com a diminuição da velocidade máxima permitida em vias urbanas de todo o país para 50 km/h, como recomenda a OMS (Organização Mundial da Saúde). Mas não é somente a redução da velocidade que pode fazer com que o número de acidentes e mortes aconteça, é necessário responsabilidade daqueles que conduzem veículos de quatro ou mais rodas.
Invisibilidade seria a palavra certa. Em relação a essas fatalidades, é frequente que os motoristas envolvidos em acidentes declarem não terem percebido a presença do ciclista. A pergunta que se coloca é quantos óbitos são requeridos para que os usuários de bicicletas como meio de locomoção se tornem mais visíveis. A infraestrutura da cidade de São Paulo é extensa, mas é utilizada de forma ilegal por muitas pessoas, como por exemplo, carros estacionados – usados como embarque e desembarque, ciclofaixas que foram apagadas da rua devido ao recapeamento da prefeitura e não foram realocadas, tudo isso contribuindo para que o ciclista faça uso da via dividindo espaço com o carro.
Renata Falzoni, cicloativista de São Paulo, aponta que esse aumento nos números de mortes deveria servir como um alerta para a necessidade de implementar uma política pública direcionada à preservação de vidas. “As mortes no trânsito estão aumentando, e isso deveria ser um alerta total para que se tenha uma política pública voltada para aquilo que deveria ser, que é salvar vidas. As políticas públicas não estão no foco de salvar vidas, mas sim de salvar números, então não são políticas públicas sistêmicas.”
No dia 27 de abril, Wallace Santana, ciclista entregador, foi atropelado na Avenida Marquês de São Vicente, na Barra Funda, por um motorista de caminhão que o atingiu numa conversão não sinalizada. No dia seguinte, integrantes de coletivos de bicicletas da capital foram ao local para prestar homenagem ao ciclista, instalando uma ghost bike e cobrando por justiça.

Ativistas posicionam ghost-bike em local onde vitíma foi atingida (Reprodução: Mário Palhares)
Outro ciclista que perdeu sua vida na cidade de São Paulo é Kauã dos Santos Queiroz, de 17 anos. No dia 11 de fevereiro de 2022, ele pedalava na Avenida Corifeu Azevedo Marques, zona oeste da capital, quando foi atingido por um veículo, e o condutor, apresentando sinais de embriaguez, foi impedido de fugir por
Ações de conscientização e educação para o trânsito são fundamentais para a segurança viária de ciclistas, como por exemplo campanhas informativas para motoristas alertando a presença de ciclistas e pedestres nas vias. Maria Clara Cândido, de 26, ciclista e administradora, afirma que são necessárias as campanhas, porém, não surtem efeito algum. “Apesar das constantes campanhas de conscientização no trânsito, lamentavelmente, as estatísticas continuam a registrar ocorrências fatais envolvendo ciclistas. Essas campanhas, embora bem-intencionadas, parecem não surtir o efeito desejado na redução dos acidentes e na preservação de vidas.” disse Maria Clara.
Na pesquisa nacional Perfil do Ciclista 2021, com resultados divulgados em abril do ano passado, os tópicos ‘Infraestrutura’ e ‘Segurança no Trânsito’ foram apontados como os dois principais estímulos para que as pessoas passassem a pedalar mais, com 55,6% e 26,8% das respostas, respectivamente. Embora a malha cicloviária da cidade paulistana tenha aumentado bastante desde o lançamento do Plano Cicloviário em 2019, é fato que a segurança viária é a principal preocupação de quem pedala.
Em nota, a prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Mobilidade e Trânsito (SMT) e da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), informa que, desde o lançamento do Plano Cicloviário, em dezembro de 2019, sua ampliação foi de 45%, com entrega de 190 km de novas estruturas dedicadas à bicicleta, totalizando 792,1 km.
Ainda de acordo com a nota, “a prefeitura investe em medidas para contribuir com a segurança dos ciclistas, como por exemplo: redução das velocidades máximas permitidas nas vias, priorizando a segurança de pedestres e ciclistas, aumento no tempo de travessia para pedestres nos principais corredores viários de São Paulo, implantação de novas faixas de travessia para pedestres e ampliação da malha cicloviária, proporcionando mais segurança e integrando o modal ao transporte público” disse o órgão.
Não só os ciclistas têm deixado marcas de sangue e sofrimento em São Paulo. Os dados do Infosiga também apontam um aumento de 23% nas vítimas fatais entre pedestres, 200% entre usuários de ônibus e 2% nas mortes de motociclistas. No entanto, durante o mesmo período, as fatalidades em automóveis diminuíram em 27%, e as de caminhões reduziram em 33%.
Mapeando o perfil das vítimas, dados do Infosiga mostram que 92,96% dos óbitos são homens e 7,04% representam mulheres. Além disso, a pesquisa expõe que na maioria dos casos, os óbitos aconteceram 63,07% no hospital e 32,38% no local dos fatos.

Como citado por Renata Falzoni, “A educação do motorista é algo fundamental, no entanto, deve ser propiciado um desenho urbano que incentive o motorista a respeitar o próximo, se não, de nada adiantam todas as regras impostas.” Ainda há muito o que melhorar e ser planejado não só para ciclistas mas também pedestres, buscando políticas públicas que sejam eficientes e que apresentem bons resultados para o uso coletivo e seguro.
Além disso, é crucial promover uma mudança cultural no comportamento dos motoristas, enfatizando a importância de compartilhar as vias com os usuários mais vulneráveis, como ciclistas e pedestres. A infraestrutura cicloviária deve ser constantemente revisada e expandida, levando em consideração não apenas a extensão, mas também a qualidade e a segurança dessas vias. A relocação de ciclofaixas removidas devido a obras municipais, como recapeamentos, é essencial para manter a segurança dos ciclistas e garantir um fluxo contínuo de vias dedicadas. A implementação de tecnologias. Parcerias entre o governo, ativistas ciclísticos, especialistas em trânsito e a comunidade em geral são fundamentais para criar soluções integradas e sustentáveis. Por fim, manter um diálogo aberto entre todas as partes envolvidas, ouvindo as preocupações da comunidade ciclística e implementando medidas que atendam às necessidades específicas desses usuários. O desafio de garantir a segurança viária requer um compromisso contínuo e colaborativo para criar um ambiente mais seguro e inclusivo para todos que compartilham as vias da cidade.




Comentários